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Cáritas reflete sobre o cuidado com o meio ambiente e aponta sinais do Bem Viver

Cáritas reflete sobre o cuidado com o meio ambiente e aponta sinais do Bem Viver

“Temos sinais de construção de um novo céu e uma nova terra, e eles estão sistematizados na expressão: sociedades do Bem Viver”, defendeu o filósofo, Ivo Poletto, durante a mesa de debate “Mudanças Climáticas: Desafios Pastorais no Cuidado da Casa Comum”, realizada na sexta-feira (3), em Piranhas (AL).

Para Poletto, é preciso avançar e juntar forças por meio das práticas populares do Bem Viver, como a resistência dos negros, quilombolas e as economias solidárias. “Precisamos exigir mudanças rápidas e fazer o caminho que esses povos já veem fazendo, de uma relação de cooperação harmônica e respeitosa com a mãe terra”, ressaltou.
A mesa, que abordou o tema da VIII Assembleia da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2, realizada entre os dias 03 e 05 deste mês, em Piranhas (AL), às margens do Rio São Francisco, abriu as reflexões sobre os impactos da degradação do meio ambiente e as consequências no planeta, com um olhar para a realidade dos biomas brasileiros. O debate foi mediado por Itamar de Carvalho, da Cáritas Diocesana de Pesqueira, e teve a participação de Irenaldo Pereira, da Ação Social Diocesana de Patos, e Tamyris Farias, da Cáritas Diocesana de Palmeira dos Índios.

Na ocasião, Poletto iniciou o debate e conduziu a reflexão, a partir do seguinte questionamento à plenária: “O que vocês fizeram com os jardins que receberam para viver?” A indagação é feita à luz da passagem bíblica que norteou toda Assembleia “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom” (Gn 1,31). “Uma vez estragado, um jardim interfere em todos os outros, porque há solidariedade entre eles, apesar das características peculiares a cada um”, disse Ivo, se referindo aos biomas. Poletto complementou a reflexão, dizendo que “eles (biomas) se relacionam por meio da troca, ou seja, recebendo e devolvendo. Quando a gente desequilibra a Amazônia, por exemplo, afetamos todo o circuito de água do Brasil”, alertou.

Em Piranhas, cidade alagoana às margens do Rio São Francisco, a população já vem sofrendo as consequências ambientais e sociais, devido à degradação do rio. “Se acabarmos com o bioma Cerrado, que vem sendo desgastado ao longo do tempo, não teremos água no São Francisco”, alertou Poletto para exemplificar a relação entre os biomas, à gravidade do problema e o estado de fragilidade do “Velho Chico”.

Crise

O desafio da crise hídrica foi trazido à mesa de debate pelo mestrando Irenaldo Pereira. De acordo com ele, a crise hídrica não é apenas um desafio para a região Nordeste, mas uma realidade posta a todo país. “Nossos mananciais, sendo na caatinga ou no cerrado, de alguma forma, já estão todos ameaçados”, disse.

Irenaldo fez questão de ressaltar a necessidade de olhar de forma associada para as questões relacionadas às mudanças climáticas, ao aquecimento global e a crise hídrica, para que se possa compreender de forma completa algo que tem ameaçado o planeta. “Não podemos tratar essas três dimensões de formar fragmentada, sem refletir sobre a complexidade da questão”, enfatizou. Na dimensão pastoral, Irenaldo aponta à Encíclica Laudato Si como um documento de referência para as discussões relacionadas ao cuidado com o planeta e ressaltou que é preciso se apropriar desse documento e colocá-lo em prática nas ações do cotidiano.

Impactos na produção

A mestranda do Programa de Pós-graduação em Química e Biotecnologia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e que também trabalha na área de Economia Popular Solidária na Cáritas Diocesana de Palmeira dos Índios, Tamyris Farias, abordou a pesquisa “Entre o Pão e o Concreto: os usos do território revelando os pilares de uma terra”, produzida pelo mestrando Thiago Dantas, do Instituto de Geografia e Meio Ambiente (IGDEMA/UFAL). Na reflexão, ela tratou sobre os fluxos da produção de alimentos na zona da mata alagoana, em detrimento ao uso do território, que tem priorizado a produção sucroalcooleira, a expansão imobiliária e a exploração de petróleo e gás na região. De acordo com Farias, muitos alimentos consumidos na zona da mata vêm do Agreste e Sertão, mas também de outros estados, a exemplo de Mato Grosso do Sul e Pernambuco, e até de outros países. “Essa prática eleva os preços dos produtos nas feiras livres”, explicou.

Para ela, é preciso instituir políticas públicas que estimulem a produção alimentar e assegurem que a população mais pobre possa consumir alimentos sem ter que pagar mais caro por isso. No contraponto, Farias aponta sinais visíveis de ações voltadas à prática do Bem Viver, e que estão presentes no Semiárido alagoano. “Apesar das dificuldades, há um povo que resiste no Semiárido. Resiste às crises hídricas e está produzindo alimentos que são consumidos na zona da mata, seja por meio da água das cisternas de placas para produção, ou sementes germinadas com o apoio dos bancos comunitários”, lembrou.

Kilma Ferreira | Assessoria de Comunicação do Regional NE2
Fotos: Lidiane Santos | Assessoria de Comunicação do Regional NE2


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