Memória e resistência marcam 30º Romaria de Canudos

Memória, caatinga e vida. Esse foi o lema da 30º Romaria de Canudos, que reuniu centenas de pessoas no último domingo (24), em Canudos (BA). O objetivo do momento foi registrar e fortalecer o papel de Canudos na história brasileira, reverenciando as vítimas do massacre.
Jovens, adultos, idosos, gente de todas as cores e credos seguiram em caminhada ao Mirante do Conselheiro. “ É uma emoção voltar aqui e encontrar muitas sementes germinadas, muitos movimentos funcionando, muita alegria e muita fé no meio desse povo”, conta a romeira Irmã Jascinta.
A programação do evento se iniciou na última quinta (19), com o Encontro das Pastorais sociais do Nordeste e o Seminário Canudos: Memória e resistência, além de apresentações histórico culturais protagonizadas por alunos de rede pública de educação. O momento também contou com uma mesa de análise de conjuntura, uma celebração inter-religiosa com a presença de católicos, umbandistas e evangélicos e a noite cultural, animada pelo show de Israel de Jesus, Grupo P1 Rappers e Coral Ecumênico da Bahia.
Para o Padre José Alberto Gonçalves, da Paroquia Santo Antônio de Canudos, “ a presença das pastorais sociais veio enriquecer a romaria”. “ A análise de conjuntura apontou as perspectivas de esperança de reação a todo esse golpe que estamos experimentando na política, economia e cultura, porque a grande elite não quer que algumas manifestações culturais sobrevivam”, disse.
Histórico de Canudos – Ao falar do movimento de Canudos, logo lembramos de Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido por Antônio Conselheiro. Antônio Conselheiro chega à Bahia num contexto de sofrimento por parte do povo, dos pequenos agricultores e comerciantes locais. O decreto da Princesa Isabel pondo fim a escravidão (1888), sem nenhum tipo de política compensatória e de inclusão social, colocou os negros e negras numa situação de exclusão e indigência. Em 1877 a 1900 várias secas provocaram um intenso ciclo de migração interna no Nordeste. Na grande seca de 1877 a 1879 morreram cerca de 300 mil nordestinos e nordestinas. Estima-se que no Ceará em 1878 a migração, pôs em movimento migratório 120 mil pessoas.
O conselheiro chega a Canudos nesse contexto de abandono das populações empobrecidas. O Nordeste não interessava ao poder econômico e político. Antônio Conselheiro falava ao povo, afirmando ter sido chamado por Deus para servi-lo. Conselheiro, leigo, católico, diz-se convertido para anunciar o Evangelho aos mal-aventurados sertanejos/as.
Não fazia milagres, nem seus seguidores lhe atribuíam práticas miraculosas. Antes de chegar a Canudos, ele perambulou pelo interior do Ceará, Sergipe e Bahia, pedindo que o povo se organizasse e acabasse com a dominação dos maus políticos e latifundiários. Chegou à fazenda Umburana, a 420 KM de Salvador entre Euclides da Cunha e Jeremoabo, em 1893.
O lugarejo, batizado de Canudos, situado às margens do rio Vaza-Barris, tornou-se palco de uma comunidade de cerca de 20 mil migrantes das secas, ex-escravos, empobrecidos, desempregados e pequenos proprietários, que deixavam tudo para apostar em uma vida mais digna na chamada comunidade de Belo Monte, como ficou conhecido Canudos.
A Comunidade de Canudos logo cresceu. Antônio Conselheiro chegou com cerca de 800 peregrinos/as em 1893 e, quando foram massacrados (1897) pelas forças conservadoras do estado e pelo latifúndio, já contava com cerca de 20 mil pessoas.
Por Assessoria de Comunicação da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 3