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Mulheres migrantes são destaque do segundo dia do FSM 2018

Mulheres migrantes são destaque do segundo dia do FSM 2018

A programação do Fórum Social Mundial 2018 iniciou, nesta quarta-feira (14), com o Seminário Internacional “O Rosto da Mulher Migrante”, no Convento de São Francisco, em Salvador (BA). Foram trazidas, durante o debate, contribuições de migrantes, agentes Cáritas de entidades membros de Norte a Sul do Brasil, de representantes do Secretariado Nacional, da Cáritas Internacionalis e de outras instituições.

Para a assessora nacional da Cáritas Brasileira, Cristina dos Anjos, o fórum é uma oportunidade para aprofundar as discussões em relação às mulheres, área prioritária prevista no V Congresso Nacional, realizado em 2016, na cidade de Aparecida (SP). “O fato de estarmos no mês da mulher nos inspirou a estender a reflexão para a temática das migrações e articular esse seminário com os nossos parceiros”, destacou.

O encontro trouxe à tona, nas falas de especialistas no assunto e das próprias migrantes, as condições de vulnerabilidade social que atingem esse público. Segundo dados de 2016 da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), as mulheres representam 49% da população que recorrem ao refúgio. Ainda é importante considerar, segundo a diretora de Incidência Política da Cáritas Internacionalis, Martina Liebsch, que as mulheres sempre migraram, mas, nos dias de hoje, é possível dizer que há um caráter diferenciado, visto que se tem percebido um número cada vez maior de mulheres que migram sozinhas, situação que traz consequências mais complexas. “O significado desse debate é dar mais protagonismo às mulheres que, muitas vezes, ainda são consideradas acompanhantes no processo, e não como agentes migrantes por elas mesmas. E creio que é necessário dar mais visibilidade a isso”, salientou.

Considerando a necessidade de organizar melhor a solidariedade entre os países, a diretora ainda tratou do Pacto Global para as Migrações que, entre os seus objetivos, traz a perspectiva feminina. “Pede-se aos governantes que os Estados ajudem no combate ao preconceito, na inserção e empoderamento das mulheres. Mas, isso não termina na hora que são firmados os pactos. Na medida em que os gestores aceitam as propostas, devem surgir políticas públicas que façam isso acontecer na vida delas”, considerou a diretora.

A assessora do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios, Carmem Lussi também fez parte da mesa e falou sobre o cenário das migrantes e refugiadas na América Latina e Caribe. Na apresentação, ela trouxe as condições de vulnerabilidade que as mulheres se submetem quando saem de suas origens, durante o processo migratório e quando chegam aos destinos. Violência e exploração sexual, xenofobia e marginalização social são algumas das situações que ocorrem diante da invisibilidade dada ao tema, inclusive no âmbito acadêmico, que não oferece muitos trabalhos no segmento. “E cabe-nos, como organismo da Igreja que atua nessa temática, diante do cenário que vivemos, reinventar as soluções, oferecendo solidariedade e integração”, disse a assessora.

Histórias de migrantes

O seminário também contou com as participações da venezuelana Marifer Rangel, da congolesa Prudence Kalambay, e da síria Myria Tokmaji. Elas trouxeram relatos das experiências de perseguição e fuga de suas terras natais e as condições que precisaram enfrentar na chegada ao Brasil.

O risco de perder a vida, diante dos conflitos que se arrastam há sete anos, motivou a saída de Myria Tokmaji de seu país de origem. “Estava vivendo um sonho, terminando minha faculdade. Mas os conflitos que, meu pai dizia que ia acabar logo, foram se prolongando e deixando a situação mais difícil. Meus familiares, amigos e eu precisamos enfrentar bombas e atiradores”.

A chegada ao Brasil também não foi fácil para nenhuma das três. Para Prudence, o conhecimento e escolha para vir ao país, fugindo da perseguição da África surgiram a partir das belas paisagens do Rio de Janeiro e dos cenários das casas das telenovelas brasileiras exibidas pelas emissoras de Angola, lugar que viveu assim que saiu do Congo. “Quando cheguei, descobri aqui que era negra. As pessoas ficavam olhando e até se afastavam”, relatou a congolesa, acrescentando a realidade de pobreza e violência que se deparou ao desembarcar na capital carioca.

Para a venezuelana, a realidade não foi diferente. Marifer Rangel destacou que, entre tantos problemas, teve que arrumar forças para ajudar a filha que a acompanhou na vinda ao Brasil. Com apenas 13 anos, a saudade do país de origem e o choque cultural levaram a jovem à depressão que, depois de alguns meses de tratamento, está se recuperando.

Desafios

A consolidação de pactos globais de solidariedade entre os países podem ser cruciais para a mudança nas relações das populações dos territórios. E, nesse sentido, as migrantes da mesa, reconhecem que são necessários vários esforços para uma qualidade de vida para elas e suas famílias longe de suas terras.

Marifer Rangel destacou, por exemplo, que as leis de migração precisam ser ajustadas às necessidades de gênero. “É preciso que os políticos e a sociedade entendam que nós, mulheres migrantes, somos iguais a qualquer uma. Temos apenas histórias diferentes, mas as mesmas necessidades”, ressaltou a venezuelana.

As leis atuais ainda estão distantes, segundo elas, das necessidades. A migrante síria, ao ser demitida de uma empresa no Brasil, teve dificuldade de acessar os recursos do seguro-desemprego; demorou seis meses para abrir uma empresa, como Micro Empreendedora Individual, para sua mãe vender esfirras; não conseguiu revalidar seu diploma, entre outros.

No mesmo contexto, é importante, para as migrantes que elas tenham oportunidade de falar e ser ouvidas pelo poder público. “Vejo que é necessário um migrante trabalhando em Brasília, sendo nosso porta-voz. Porque sabe bem a nossa realidade, passou pela experiência.

Por Wagner Cesario | Rede de Comunicadores/as da Cáritas Brasileira | Regional NE2


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