Um lar para todos, sem exceções, o mundo é a nossa casa comum

Cheguem, a mesa está posta. Há lugar para todos. Tem comida e aconchego. Seus direitos estão assegurados. Você é um de nós. Vamos juntos assumir nossos deveres e continuar cuidando de nossa casa comum. Não há muros nem barreiras. A casa é nossa.
Entre flores de ipês, num painel, já na porta de entrada, os participantes do “Seminário Internacional de Migrações e Refúgio: Caminhos para a cultura do encontro”, que está sendo realizado em Brasília (DF) de 12 a 14 de junho de 2018, são convidados a estreitar laços alargar o coração e abrir os braços em meio a tantas culturas, histórias, lutas, resistências e protagonismo de migrantes e refugiados que vivem no Brasil e aos que estão chegando.
Nas laterais do auditório, cartazes – cuidadosamente finalizados com rendas, franjas trabalhadas a mão – com os verbos: acolher, proteger, promover e integrar sugeridas pelo papa Francisco para fortalecer a cultura do encontro com os migrantes refugiados.
Ao esticar um pouco mais o olhar, até o palco, um grande quintal, quatro ipês amarelo e no centro uma mesa que convida a sentar-se, puxar uma prosa sem pressa, a ali debulhar a vida, os sonhos, as dores, as alegrias, as conquistas, os medos, as angustias, as preocupações e a solidariedade.
Não é à toa que o ipê está tão presente neste Seminário, é a árvore da resistência e da ousadia, se despe de todas as folhas para florir, no inverno. Diz a lenda que o Criador deu liberdade às árvores para escolherem seu tempo de flores. Durante o inverno ninguém havia escolhido.
– Eu preciso de pelo menos uma árvore, que embeleze o inverno, que seja corajosa, para enfrentar o frio, a seca e as queimadas.
Todas ficaram em silêncio. Foi então que uma árvore silenciosa, lá no fundo, balançou as folhas e disse:
– Eu vou.
O Criador perguntou:
– Qual seu nome?!
– Me chamo Ipê!
As outras árvores ficaram espantadas com a coragem em querer florescer no inverno.
O criador respondeu:
– Por atender meu pedido farei com que você floresça no inverno não só com uma cor, como agradecimento, terás diferentes cores e texturas, sua linhagem será enorme. Para que também no inverno o mundo seja colorido.
Há um texto que circula nas redes sociais, – não consegui encontrar a autoria –, referente ao tronco de um ipê que foi cortado para ser usado como poste na cidade de Porto Velho (RO) para suportar as linhas que transportam eletricidade. O texto diz assim: “Na guerra pelo progresso, o homem não mede esforços e as consequências dos seus atos. O importante é avançar. Numa batalha desigual, destrói insanamente os recursos naturais, essenciais à sobrevivência. A resposta da natureza pode até demorar, mas não falha. Às vezes, é imediata, intrigante ou mesmo desafiadora. Só precisamos interpretá-la.
Num ato silencioso e inusitado, ela respondeu aos afiados machados e às violentas motosserras, maiores formas do desrespeito destruidor. Insistiu e exigiu seu espaço para expor a beleza de suas flores e a generosa sombra de sua copada, numa grande demonstração de energia e desejo de viver.
Derrubado e transformado em poste para suporte dos fios da rede elétrica, o Ipê amarelo não se entregou. Com uma reação estupenda, recuperou sua pompa e reinado de árvore símbolo nacional. Rebelou-se à condenação injusta, criou suas raízes no solo e voltou a reinar absoluto, esbanjando alegria e beleza com sua identidade marcante.
Reconsiderando o seu ato, o homem decidiu transferir a rede elétrica a um poste de concreto instalado ao lado. Agora o Ipê reina livre dos fios”. Que assim consigam os migrantes e refugiados que chegam ao Brasil. Mesmo com suas raízes arrancadas da pátria-mãe, possam encontrar espaços favoráveis e floresçam com suas cores multiculturais e sejam integrados, misturados com cores da cultura brasileira.
O Papa Francisco já nos disse em várias ocasiões, em clara mensagem de fraternidade e de tolerância para com outras culturas e religiões. “Os imigrantes não são um perigo, estão em perigo”. Somos a raça humana. E se mergulharmos em nossa ancestralidade vamos descobrir que temos em nossas veias sangue migrante. Há um migrante em nós! Todos somos migrante!
E assim seguimos nossa viagem pelo cenário do Congresso Internacional de Migrações e Refúgio que tem a assinatura de Patrícia Antunes e Grupo Arte em Movimento. “Nós quisemos trazer a cozinha de um quintal, onde todos sentam, conversam, falam de coisas que importam ou não, riem, choram… A chegada dos refugiados [cartaz do congresso que traz a chegada de muitas pessoas, e uma criança em primeiro plano] na frente uma criança que abre os braços para quebrar a dureza e tristeza que está presente no processo de ter que deixar o seu lugar, romper com suas raízes… A criança traz essa esperança… E onde queremos acolher os migrantes e refugiados? Em nosso quintal, perto no fogão, sentado em nossas cadeiras em meio as flores do cerrado o ipê”, conta Patrícia.
Também no cenário está presente algumas malas de viagem, com o convite: “Compartilhe a Viagem”. Os inter-regionais da Cáritas Brasileira, que são: Internordeste, Internorte, Intersul e Intersudeste e Centro-Oeste receberão uma dessas malas com a missão de reunir histórias de migrantes e refugiados em todo o país que posteriormente serão publicadas. Os migrantes e refugiados também são sujeitos na história do Brasil.
Por Osnilda Lima
Fotos: Francielle Oliveria
Rede de Comunicadores/as da Cáritas Brasileira